O LUTO MATERNO DO DESMAME

Você pode pensar que quem mais sofre e sente o desmame materno são os bebês, mas muitas mães sentem nesse momento a dor da separação, como se só agora o cordão umbilical que os uniu, se rompesse.

Segundo Freud, a amamentação proporciona ao bebê a ilusão da continuidade intra-uterina, o nosso seio é o primeiro objeto do bebê, e por isso a ligação do corpo do bebê com o corpo de sua mãe só se desfaz a partir do desmame.

As transformações maternas começam na gestação, todo nosso corpo e psicológico se modifica e se prepara para gerar e receber essa nova vida. A barriga cresce, os seios aumentam, os quadris se alargam, as pernas pesam, as costas doem. O paladar muda, o sono aumenta, a memória falha e nossa noção de espaço quase que desaparece.

Mais ou menos 9 meses se passam, e você tem nos seus braços aquela coisinha linda, frágil, enrugada, de olhinhos quase sempre fechados, e totalmente dependente de você.

Ai então eles querem o peito quando estão com fome, quando estão inseguros, cansados, doentinhos, carentes… O nosso peito se torna a principal fonte de alimentação física e emocional deles.

“… deve-se compreender que a amamentação não significa somente a nutrição fisiológica do bebê, mas também o primeiro vínculo de amor, um período extremamente afetivo, que necessita ser interrompido para dar continuidade na constituição da personalidade da criança.”

 

(Letícia Sanches de Castilho – Psicóloga clínica e psicanalista imersa no mundo mamães e bebês)

 

bebê mamando no peito

 

Quando João Pedro tinha 1 ano e 9 meses, conversei com o Pediatra sobre parar de amamentar. Ele nos acompanha desde a sala de parto! Sabe da saúde de ferro que ele tem, e do nosso cuidado com sua alimentação. Me tranquilizou e fiz uma tentativa que foi extremamente sofrida para nós dois. Tínhamos feito o desmame noturno a uns meses (assunto para outro post), e achei que o processo todo seria mais tranquilo, me enganei. Ele não entendia como de uma hora para outra o ‘mama’ tinha acabado, só dormia no peito (erro meu desde o inicio!), o mama era a sobremesa de todas as refeições e muitas vezes o substituto para elas.

Meus seios ficaram super doloridos e começaram a empedrar. Por mais que eu ordenhasse, nunca era o suficiente. Alguns dias se passaram e eu cedi. Hoje eu vejo que eu não estava pronta para parar, e isso faz toda a diferença.

Fomos viajar e regredimos tudo. Ele voltou a mamar de madrugada, chegava a acordar 3 ou 4 vezes. Decidi esperar pela volta para casa para então retomar o desmame noturno, e então o desmame total.

João Pedro tinha pouco mais de 1 ano e 11 meses, e até então eu não sabia mais o que era ter sono e ir direto para a cama, terminar as refeições sem ele ‘pendurado’ no peito, entre tantas outras coisas.

Na primeira noite voltamos a estaca zero, com ele chorando desesperadamente, puxando minha blusa e empurrando o pai que tentava acalmá-lo.

Lembrei de uma amiga que usou a Aborrecida (Tintura de Aloe Vera e Rui Barbo), um produto natural e sem contra-indicações, usado para auxiliar crianças a parar de chupar chupeta, mamar nos seios ou mamadeira. Quando vi a composição da Aborrecida logo lembrei das Avós conhecedoras de tratamentos naturais: “Passa babosa no bico do seio!”

Queríamos que fosse o menos dolorido possível para o João Pedro, e que ele mesmo chegasse a conclusão de que não dava mais. Antes de irmos para a cama passei um pouquinho de babosa nos seios.

Quando ele pediu para mamar falei que estava ruim, que tinha estragado, mas ele quis mesmo assim e quando colocou a boca em um dos seios fez cara ruim, tentou no outro e constatou a mesma coisa. Perguntei se ele queria água, e aceitou. Nunca demos outro leite para ele, nem mamadeira ou chupeta. Chamei ele para deitar na cama comigo e falei ‘fecha os olhinhos e abraça a mamãe para dormir’. E assim ele pegou no sono, abraçado em mim. Acordou uma vez pedindo mama, falei que estava ruim, ele bebeu água e voltou a dormir. Por volta das 4 horas da madrugada e ele acordou de novo e eu cedi, o gosto da babosa já tinha sumido. Ele mamou, voltou a dormir e eu me senti aliviada física (meus seios estavam muito cheios) e psicologicamente (ainda estávamos ligados).

No dia seguinte quando ele insistia em mamar sentia o amarguinho da babosa e parava na hora. Na segunda noite, ele não pediu o mama. Eu ofereci, ele recusou e afastou meio seio com a mãozinha. Ele dormiu, e eu chorei de soluçar. Aquele choro de perda, de luto, de tristeza profunda, como se tivessem arrancado ele dos meus braços.

Chorei porque ele já não é mais um bebê, porque cortamos de uma vez o nosso cordão. Porque pela primeira vez em quase 2 anos, ele recusou o meu peito!

No dia e noite seguintes quando ele dava a entender que queria mamar eu dizia que estava ruim, pegava no colo, beijava, abraçava, oferecia algo para comer e beber, e ele esquecia o mama. Meus seios estavam super doloridos e cheios. Fui dormir no quarto dele e ele passou a noite na nossa cama com o Robson. De manhã cedo ele foi me procurar. Deitou na cama comigo e pediu mama, eu dei e me senti aliviada. Ficamos nos olhando e aproveitando ao máximo cada segundo daquele momento que sabíamos que seria o último. Sua ultima mamada aliviou meus seios, e o meu coração. Ele seguia sendo meu bebê, um pedaço de mim, e mesmo com esse vinculo cortado naquele momento tivemos a certeza de que nossa ligação e amor são muito maior do que isso.

Se eu sinto falta de amamentar? Sim, claro que sim!

Se eu me arrependo de ter parado? Às vezes. Quando a saudade aperta. Quando sei que tudo que ele quer é o aconchego, e enfia as mãozinhas dentro da minha blusa para pegar no sono. Mas eu sabia que já estava na hora de parar, pela idade e desenvolvimento dele. Confesso que me dói lembrar que foi tão rápido, achei que levaríamos dias ou semanas até ele parar de mamar definitivamente.

Desde então meu corpo, mente e coração entraram em sintonia e a produção de leite diminuiu drasticamente.

Ele ainda pede o mama ás vezes, mas entende quando digo que esta ruim. E eu aprendi a decifrar quando o pedido de mama significa sede, fome ou simplesmente aconchego!

A nossa relação está mudando, crescendo e eu estou curando o luto com muitos beijos, abraços, muito colo e muito mimo!

 

siga o pés descalços

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